terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

“A quem vocês estão procurando?”

Na noite em que foi traído por um de seus seguidores e entregue aos soldados para ser levado preso, Jesus estava reunido com seus discípulos em um olival. Ao perceber movimentação de seus algozes, Jesus lhes dirigiu a palavra, dizendo: “A quem vocês estão procurando?”. A essa pergunta, eles lhe responderam: “A Jesus de Nazaré”. O Senhor então replicou: “Sou eu” (João cap. 18). Em minha percepção, a busca por algo é o fator que torna a vida dinâmica; sem isso não há propósito, apenas inércia e tédio.
“A quem vocês estão procurando?” Essa pergunta parece adquirir um grande peso à medida que nos detemos a ela. Aqueles soldados estavam à procura de Cristo. Não para segui-lo, ou ouvir suas palavras, mas para levá-lo preso. Nos últimos anos temos visto uma verdadeira “revolução evangélica” no Brasil: são milhões de novos adeptos todos os anos, incluindo muitos famosos, que passam a professar a nova religião. Afirmam buscar a Cristo. Mas com que motivação? Testemunhos em programas televisivos escancaram: sucesso profissional, prosperidade material, terapia amorosa, etc. O evangelista Lucas conta que certa ocasião, um homem disse a Jesus: “Eu te seguirei por onde quer que fores”. Jesus respondeu: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça” (9:57-58).
Jesus sempre se mostrou acolhedor. No entanto, nunca deixou de dizer a verdade, ainda que lhe custasse menos popularidade e menos seguidores. No evangelho de João (cap. 6:66) lemos que muitos o deixaram após um “discurso duro”. Mas ele não se esconde, antes, anuncia a si mesmo a todos: “Sou eu”. Ele é o Cristo, a esperança de vida nova. E também alerta: “Ninguém pode servir a dois senhores, porque odiará um e amará o outro”, ou seja, dentre muitos “senhores” e “senhoras” a quem possamos invocar ou servir, ele exige exclusividade, pois “só há um Deus e um mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo”(I Tm 2:5).

Buscar a Jesus é “matar ou morrer”. Ou crucificamos novamente o Filho de Deus ou nos aliamos a ele em sua cruz. A quem você busca? Aqueles soldados e os homens que os enviaram não suportaram a verdade de Jesus, e o procuraram para silenciá-lo. Muitos o buscam não para segui-lo, mas porque querem benefício próprio. Mas se você busca vida plena e esperança, Cristo se pronuncia: Sou eu. 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Sonda-me

Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno. Salmo 139:23,24

Essa é uma oração difícil de ser feita com sinceridade! “Sonda-me e conhece o meu coração!” .  Nossa tendência é sempre colocar máscaras, vivemos de aparências. Nossa primeira impressão acerca de uma pessoa é a nossa visão quem dá, relativa ao estereótipo dessa pessoa. Da mesma forma nós também sempre procuramos impressionar aos outros zelando por uma aparência agradável ou, no mínimo, conveniente. Em um certo nível, não há nada de errado em cuidar do exterior; o problema é quando erguemos sobre nós uma camuflagem sobre quem realmente somos, quando agimos com hipocrisia. Mas também é problema quando evitamos o confronto com a Palavra Viva, quando estamos aconchegados em nossa zona de conforto, presumindo que “estamos bem na fita”.
No meio evangélico atual, há essa necessidade de estar sempre bem: os chavões e as “encenações” dentro da igreja estão aí pra provar isso. Escondemos nossas falhas e dificuldades dos outros, de nós mesmos, e achamos que podemos nos esconder de Deus, imaginando que podemos nos tornar mais “aceitáveis” pra Ele (a propósito, Cristo morreu por nós sendo nós ainda pecadores!!). Com isso, somos nós mesmos quem perdemos, deixando passar oportunidades de experimentar de formas muito profundas o amor de Deus e a santificação em nossas vidas.
As Escrituras afirmam que “A Sepultura e a Destruição estão abertas diante do Senhor; quanto mais os corações dos homens!” (Provérbios 15:11). Deus conhece o profundo de nossos corações: anseios, intenções, pensamentos, desejos e pecados. O Senhor Jesus falou com a igreja de Laodicéia no livro de Apocalipse, dizendo:
Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente!
Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca. Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu; Aconselho-te que de mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças; e roupas brancas, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez; e que unjas os teus olhos com colírio, para que vejas. Eu repreendo e castigo a todos quantos amo; sê pois zeloso, e arrepende-te. Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo.
  Apocalipse 3:15-20
Uma das cenas mais engraçadas e ao mesmo tempo mais tristes é quando observamos pessoas que “se acham” mas não são – estão plenamente convencidas em si mesmas que estão no topo, enquanto que, na verdade, todo o resto vê uma situação muito diferente.
Vamos visitar uma passagem dos evangelhos sinóticos que pode nos ajudar a refletir sobre essa verdade em nossas próprias vidas, e que também vai nos confrontar:
Quando Jesus ia saindo, um homem correu em sua direção, pôs-se de joelhos diante dele e lhe perguntou: "Bom mestre, que farei para herdar a vida eterna? "Respondeu-lhe Jesus: "Por que você me chama bom? Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus. Você conhece os mandamentos: ‘não matarás, não adulterarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não enganarás ninguém, honra teu pai e tua mãe’". E ele declarou: "Mestre, a tudo isso tenho obedecido desde a minha adolescência". Jesus olhou para ele e o amou. "Falta-lhe uma coisa", disse ele. "Vá, venda tudo o que você possui e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me".
Diante disso ele ficou abatido e afastou-se triste, porque tinha muitas riquezas.
Jesus olhou ao redor e disse aos seus discípulos: "Como é difícil aos ricos entrar no Reino de Deus!" Os discípulos ficaram admirados com essas palavras. Mas Jesus repetiu: "Filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus!  É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus".
 Marcos 10:17-25
Vemos aí a história de um homem piedoso conforme a lei e as tradições judaicas. Tinha uma vida religiosa “pra ninguém botar defeito”. Ainda assim, ele recorreu a Jesus. Não sabemos sua motivação ao fazê-lo, mas duas hipóteses me passam à mente (que não refletem necessariamente a verdade): 1) Ele esperava ouvir elogios de Jesus por sua fidelidade à lei, ou 2) Ele imaginava que Jesus lhe daria mais mandamentos para que ele cumprisse (e assim teria mais piedade...).  Mas Jesus lhe desvendou o coração.
Ele se ajoelhou diante do Senhor e chamou-o de “bom mestre”. Provavelmente esse tipo de reverência era desejada pelos fariseus e mestres da lei da época, mas Jesus parece ter feito pouco caso. Em resposta à pergunta do homem rico, Jesus deve ter soado como “Como assim, ‘o que farei pra herdar a vida eterna’? Você já não conhece os mandamentos?” Isso parece um tanto quanto provocativo, em um bom sentido, da parte do Senhor. Talvez para saber se o rapaz se contentava com aquilo, ou se estava insatisfeito, se havia inconformismo. “Que me falta ainda?”, disse o jovem, segundo o relato de Mateus. Mais uma vez, é difícil perceber a motivação do rico com essa questão. Poderia ser sincera, ou então legalista ou pretexto pra se gloriar.
Mas o detalhe que só existe no livro de Marcos é esse: “Jesus olhou para ele e o amou”. E não importa o que trazemos conosco, esse é olhar de Jesus sobre nós também. E não importa o que ele venha a nos dizer, será dito com amor. E nesse momento é que Jesus desvenda o coração desse jovem rico. Várias vezes os evangelhos relatam que “Jesus conhecia os pensamentos” e o coração do ser humano. E ele sempre confrontava, em um bom sentido, cada um com quem ele tratava, como quem confronta uma mentira. Os dependentes químicos aprendem que o primeiro passo pra recuperação é admitir o problema. E a didática de Jesus passa por essa etapa. Foi assim com Nicodemos (“És mestre em Israel e não sabes estas coisas?”), com Pedro, com Tiago e João, e com vários outros, e é assim conosco também. Jesus não se conforma em deixar que vivamos nossas mentiras, nossa fuga de nós mesmos. Ele deseja nos curar!
Em seguida, Jesus lhe disse: "Se você quer ser perfeito, vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me" (Mateus 19:21). E foi nesse ponto que Jesus tocou na ferida, expôs o interior daquele homem para que ele mesmo pudesse contemplar. Ele quis mostrar que apesar da obediência irrestrita à Lei, o coração do jovem não estava em Deus. Então, o Senhor lhe propõe renunciar àquilo que lhe governava o coração. E esse é o segundo ponto da didática Divina: a entrega. Foi assim com Abraão, que após 25 anos de espera gerou a Isaque aos 100 anos de idade, fruto da promessa de Deus, e foi desafiado a devolvê-la a Deus, para que seu coração não estivesse na promessa, mas sim naquEle que prometeu. Foi assim com Paulo, que tendo muitos motivos pra se gloriar na sua formação humana rejeitou tudo como refugo, a fim de ganhar a Cristo. E então Jesus convidou o jovem rico a segui-lo.
Diante disso ele ficou abatido e afastou-se triste, porque tinha muitas riquezas. Sua tristeza passou pelo enfrentamento da realidade de seu coração e da impossibilidade de renunciar isso. O propósito dessa análise não é, de forma alguma, julgar esse homem; é de identificar-nos com ele. Somos mais parecidos com ele do que pensamos. Seu destino foi essa tristeza, e sua escolha de se afastar. Quando nos conformamos, nos afastamos. E, sem dúvida há muitas coisas que podem dominar nosso coração, mas não podemos ignorar o fato de que dentre todos eles Jesus destacou as riquezas. Isso porque além de exigir de nós o amor que é devido a Deus como as outras coisas, as riquezas nos fazem confiar e depender nelas. Jesus se indignou com a atitude do homem e fez o desabafo em seu lamento.

E nós? Desejamos que Deus realmente sonde os nossos corações?  Estamos preparados para permitir que o Senhor nos tire do nosso conforto e trabalhe fundo no nosso ser?

Ou será que ele já tem nos mostrado algumas coisas, e estamos relutantes? O conformismo é perigoso! Se não persistimos em oração diária por santificação, já estamos nos afastando!

Na realidade, se estamos em Cristo, precisamos permitir que o Senhor faça isso. Precisamos orar sempre, em humildade e contrição, para que o nosso coração não nos engane e não nos afaste dos caminhos do Senhor:

Cuidado, irmãos, para que nenhum de vocês tenha coração perverso e incrédulo, que se afaste do Deus vivo. Pelo contrário, encorajem-se uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama "hoje", de modo que nenhum de vocês seja endurecido pelo engano do pecado,  pois passamos a ser participantes de Cristo, desde que, de fato, nos apeguemos até o fim à confiança que tivemos no princípioHebreus 3:12-14
Examinem-se para ver se vocês estão na fé; provem-se a si mesmos. 2 Coríntios 13:5ª

Não precisamos temer o que pode surgir! Cristo morreu por nós enquanto ainda éramos pecadores! Quanto mais Deus não demonstrará seu amor para conosco agora que buscamos por sua graça!
Que o Espírito Santo clame em nossos corações contra toda a injustiça em nós, contra todo o pensamento que se levante contra o conhecimento de Cristo!


Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus. Romanos 12:1-2

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Comfortably numb

Como já cantava a consagrada banda inglesa Pink Floyd no final da década de 70 “I have become comfortably numb...” (“Eu me tornei confortavelmente insensível, cauterizado, vazio”). Ao que me parece, quanto mais avançamos no tempo, essa é uma situação cada dia mais freqüente. A cada dia que passa, a cada geração que surge, mais instrumentos anestésicos se formam para insensibilizar toda a dor do ser humano. Isso por si só já é um problema, pois a dor é um mecanismo importante de defesa da vida; contudo, além disso, essa anestesia nos torna apáticos a todo o resto. E nos conformamos, acostumamo-nos e até ficamos confortáveis com essa situação. Prova disso são os crescentes usos e abusos de drogas lícitas e ilícitas, remédios e meios de entretenimento, que 24h por dia nos distraem da dor, dos sentimentos, dos conflitos, e nos levam a um ciclo que parece eterno (mas não é) de fuga, de inconstância. Vivemos em movimento, a quietude nos incomoda. A história comprova isso.
O livro de Eclesiastes fala muito sobre isso. Seu assunto principal trata de como tantas coisas que tão ansiosamente e angustiadamente buscamos não passam de uma “corrida atrás do vento”. O próprio autor do livro, o rei Salomão, relata que por muito tempo se dedicou a “buscar a alegria, as coisas boas da vida”: construiu casas, plantou pomares, adquiriu bens, conquistou mulheres, entregou-se à embriaguez. Não negou nada que seus olhos desejassem. Entretanto, concluiu que isso de nada lhe servira; o melhor que conquistou foi uma porção de alegria passageira, e nada mais.
O evangelho de Jesus Cristo propõe ao homem um encontro com o Criador de todas as coisas, aquele que pode dar real significado à vida. O preço que Jesus pagou ao morrer na cruz foi para nos libertar da nossa “maneira vazia de viver, que por tradição herdamos de nossos antepassados”. Ele afirmou: “Eu vim para que tenham vida plena”, e disse que ele jamais rejeitaria quem se achegasse a ele. Sua graça vem ao encontro de nossos anseios mais profundos, nossa busca por paz, por significado na vida, nosso desejo por justiça. Não precisamos mais nos conformar ao vazio existencial! Hoje é o dia de se libertar da anestesia, do vazio. Se tens dúvida sobre esse assunto, se queres saber mais, estou à disposição através do endereço eletrônico bkbainy@hotmail.com .

domingo, 7 de setembro de 2014

O escândalo de João Batista

Uma dos relatos neotestamentários mais provocativos é o que se encontra no evangelho de Mateus, nos primeiros versículos do capítulo 11. Trata-se de um questionamento do profeta João Batista com relação ao ministério de Jesus. João estava preso, por denunciar os pecados do governador Herodes, e de sua prisão envia alguns discípulos seus interrogar Jesus: “És tu aquele que havia de vir ou esperamos outro?”. Essa pergunta é um tanto quanto interessante, pois revela uma dúvida conceitual de João: seria Jesus o libertados prometido por Deus? Para avaliar o teor do questionamento, precisamos entender o contexto histórico e religioso da época. Os judeus esperavam um enviado divino para trazer libertação, sobretudo política, e assim restaurar o Estado de Israel. Jesus, no entanto, apesar de seus feitos e discursos notáveis, não caminhava para essa direção. Certamente João não duvidava da pessoa de Jesus, nem de que ele era o filho de Deus (ele mesmo ouvira a voz de Deus em testemunho a esse fato). Sua expectativa é que estava errada: ele não conseguia compreender o ministério daquele que era o Cristo.
A reação de Jesus foi surpreendente. Sua atitude imediata foi a de operar curas e sinais miraculosos (Lucas 7:21), e então ordenou aos seguidores de João que transmitissem ao profeta o que eles haviam presenciado. A isso, ele adicionou: “feliz é aquele que não se escandaliza por minha causa". Com esse conjunto de ações, Jesus quis dizer, em outras palavras: “Sou eu mesmo, e é isso o que vim fazer. Não vim cumprir agenda política; não vim satisfazer necessidades imediatas. Vim para trazer o reino de Deus, e feliz é aquele que compreende isso”. João Batista foi confrontado com essa verdade. Ele precisou corrigir suas ideias sobre quem o Cristo deveria ser.

Ainda nos dias atuais Jesus choca muitas pessoas. Seu discurso de arrependimento, humildade e amor serviçal não têm popularidade em um mundo saturado de autossuficiência e prepotência. Diante de tudo isso, resta que indaguemos a nós mesmos: Qual é a nossa expectativa com relação ao Filho de Deus? O que nós esperamos dele? Será que buscamos nEle algo que ele não se propôs a oferecer? Será que aceitamos aquilo que ele verdadeiramente veio nos ofertar? O propósito de sua vinda ainda é o mesmo, ele continua sendo o mesmo (Hebreus 13:8).

domingo, 3 de agosto de 2014

O sentido das coisas

Uma das maiores inquietações do ser humano diz respeito ao sentido das coisas. Esse tópico talvez seja um dos grandes desafios filosóficos, mas também se encontra impregnado no nosso modo de vida e até mesmo no nosso subconsciente. Por mais que alguém possa negar inquietar-se com tal assunto, inevitavelmente todos nós buscamos respostas, seja em uma atitude contemplativa da vida, ou em alguma religião, ou através de crises pessoais.

Um dos livros da Bíblia, Eclesiastes, cuja autoria é tradicionalmente atribuída ao sábio rei Salomão, trata basicamente sobre esse assunto, utilizando exemplos cotidianos e observações do comportamento humano e da natureza para examinar essa questão. Uma das conclusões que considero mais impressionantes e provocativas está no capítulo 8, verso 17: “...percebi tudo o que Deus tem feito. Ninguém é capaz de entender o que se faz debaixo do sol. Por mais que se esforce para descobrir o sentido das coisas, o homem não o encontrará. O sábio pode até afirmar que entende, mas, na realidade não o consegue encontrar.” Que será que Salomão quis dizer com isso? Que estamos condenados a uma vida sem significado, vazia de sentido? Certamente que não! Examinando o livro de Eclesiastes, percebemos que há duas “veias” que correm desse texto: uma delas é a constante repetição da sentença “isso também não faz sentido” – sempre adjacente aos exemplos de incoerência, injustiça e maldade que há no mundo; já a outra diz respeito aos prazeres que Deus concede ao ser humano: comer, beber, alegrar-se com seu trabalho e aproveitar a vida com sua família. Eclesiastes fala dos desafios que temos neste mundo. Fala das nossas desilusões e lutas cotidianas, mas fala também das nossas alegrias passageiras.

Naquilo que até hoje consegui compreender e aprender do livro de Eclesiastes, penso que sua essência de fato aponta para a transiência e incompletude da nossa experiência terrena. Verdadeiramente o significado de nossa existência não se encontra “debaixo do sol”. A existência da maldade também macula os poucos reais motivos com que podemos nos alegrar, e mascara a vaidade com aparência que nos satisfaça. E, apesar de tudo, a suprema conclusão de Salomão, com todos os seus diagnósticos e pareceres, é: “Tema a Deus” (Ec 12:13). Num final de vida, em que já não há satisfação plena, o que remanesce é a confiança e esperança em Deus, aquele que É, por excelência, a fonte de vida e de significado.

domingo, 6 de julho de 2014

Narciso, seu espelho, e o egoísmo nosso de cada dia

A mitologia grega conta de um jovem que se considerava tão belo que sua beleza só poderia se comparar à dos deuses. Após rejeitar o amor de uma ninfa, em virtude se achar incomparável, Narciso foi alvo de uma maldição, a de se apaixonar por sua própria imagem. Certo dia, o belo rapaz teria se debruçado sobre uma fonte de águas para beber, e, ao contemplar sua própria imagem, foi por ela seduzido e permaneceu em contemplação até morrer. Pode até parecer absurdo, mas temos tanto de Narciso em nós mesmos que nem damos conta de perceber. Nosso sofrimento é sempre pior do que o do outro. A alegria do outro é fútil, mas a minha tem fundamento. Quando o outro está com pressa, “azar o dele”, mas quando eu estou apressado é por uma necessidade real. “Narciso acha feio tudo o que não é espelho”, diz uma música, e, com efeito, nós também tendemos a ignorar ou menosprezar aquilo que não aponta pra nós.
Apaixonados por nós mesmos como por encanto, parecemos incapazes de recuar do reflexo de nossa própria figura. E nesse contexto egocêntrico, em que tudo o que enxergo remete a mim mesmo, nada mais natural do que buscar a auto-satisfação e auto-gratificação, confundindo essa busca com o próprio sentido da vida. Desde a antiguidade surgiram até mesmo correntes filosóficas formais que estabeleceram o prazer como bem supremo, como o Hedonismo grego e o Utilitarismo britânico. Embora essas doutrinas, em alguns pontos, incluam aspectos sociais de benefício mútuo, elas apontam de forma muito mais enfática para o bem-estar e felicidade individuais em detrimento do coletivo, além de tornar subjetivos os critérios éticos e morais.

Onde essa atitude interior e esse modo de viver nos levam? “De onde vêm as guerras e contendas que há entre vocês? Não vêm das paixões que guerreiam dentro de vocês? Vocês cobiçam coisas, e não as têm; matam e invejam, mas não conseguem obter o que desejam. Vocês vivem a lutar e a fazer guerras. Não têm, porque não pedem. Quando pedem, não recebem, pois pedem por motivos errados, para gastar em seus prazeres”, é o que escreveu Tiago em sua carta (Tg 4:1-3), fazendo perguntas que respondem a si mesmas, apontando o perigo do egoísmo narcisista. Muitas vezes utilizamos até a nossa fé em Deus como instrumento de conquistas pessoais. A vida que todos nós procuramos não está na gratificação pessoal. Quanto mais buscamos e cavocamos em nós mesmos, mais nos perdemos e nos distanciamos da essência da vida, mais ambiciosos e fúteis nos tornamos. Precisamos nos afastar desse espelho, voltar nossos olhares para Deus, o autor e mantenedor da vida, e para o nosso próximo, a quem nos foi dada a tarefa de amar.

domingo, 4 de maio de 2014

Se eu digo a verdade, por que vocês não acreditam?

Poucas situações são tão incômodas quanto aquelas em que não somos acreditados. Seja em uma falsa acusação, em que inutilmente tentamos rebater argumentos, seja em um alerta ou conselho dado, em que com argumentos buscamos convencer alguém sobre algum risco ou sobre o melhor caminho a ser tomado. A falta de confiança ou de crédito em nossas palavras fere nossa dignidade, principalmente quando nosso estilo de vida mostra a nossa sinceridade e boas intenções.
Muita gente admite que Jesus foi um ser humano exemplar, acredita nele como uma espécie de profeta ou “espírito iluminado”. Cabe aqui dizer que ele nunca reivindicou algum desses títulos. O evangelho de João, todavia, relata vários episódios nos quais Cristo afirma quem realmente é: o Filho de Deus. E é notável o embate que se forma entre Jesus, defendendo sua identidade e sua missão, e os líderes religiosos judeus, que tentavam provar que ele era uma fraude, com destaque para os relatos dos capítulos de 6 a 9. Um dos ápices está no capítulo 8, versículo 46: “Qual de vocês pode me acusar de algum pecado? Se estou falando a verdade, por que vocês não crêem em mim?”. Ambas as perguntas soam retóricas; não parece haver necessidade de resposta, pois elas objetivaram confrontar a incredulidade dos judeus. A primeira delas diz respeito ao caráter do Cristo: a árvore é conhecida pelos frutos, e não havia nada nele que o pudesse condenar ou invalidar seus ensinamentos e suas palavras. Pelo contrário, suas boas obras, sábias palavras e os sinais que fazia só poderiam ser vindos do próprio Deus. A segunda pergunta vai de encontro ao âmago da questão: ninguém poderia desacreditá-lo, a não ser com mentiras ou estórias inventadas, mas mesmo assim as pessoas encontravam dificuldades em crer nele. Ninguém conseguia contestar sua sabedoria, e pouquíssimos rejeitariam seus milagres. Mas a grande maioria dos que conviveram com ele, mesmo os que foram beneficiados por suas obras, nunca o conceberam como quem Ele mesmo afirmava ser, Filho de Deus, Redentor da humanidade, único caminho para o Pai. E ainda hoje é assim. Jesus “veio para o que era seu. Mas os seus não o receberam. Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus” (João 1:11,12). Ele não está interessado em admiradores, e muito menos em palavras de afirmação, mas em corações que creiam.

O fato é que a verdade está aí, absoluta e independente se acreditamos nela ou não. Mas se lhe dermos uma chance, o conhecê-la e o vivenciá-la têm poder para mudar nossa vida pra melhor. E você, vai acreditar?