segunda-feira, 17 de outubro de 2016

“Vocês não querem vir a mim para terem vida”

     O psicanalista Sigmund Freud descreveu a dinâmica mental do ser humano em termos de “tensão” e “alívio” - necessidades (de naturezas diversas) que surgem e que trazem consigo o ímpeto para sua satisfação. A sede, por exemplo, gera em nós o instinto de buscar por alguma bebida. Quanto maior a sede, maior o esforço que estamos dispostos a fazer para satisfazê-la. Tenho razões para acreditar que a saúde mental de alguém inclui a forma com que lida com essas tensões (ou ansiedades) e também a forma com que busca aliviar-se. Evidentemente, quem consegue compreender sua própria necessidade terá grande chances de supri-la de forma saudável e bem-sucedida. Para o faminto “qualquer porcaria serve”, mas a satisfação plena somente virá com uma refeição saudável e equilibrada.
     Agora, o que isso significa para nós, na nossa busca diária? Os judeus da época de Cristo buscavam vida eterna. Jesus lhes disse: “Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna. E são as Escrituras que testemunham a meu respeito; contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida” (João 5:39,40). Eles sabiam o que queriam, e estavam procurando no lugar certo, porém seu ceticismo não permitiu a eles perceberem que aquele que poderia satisfazê-los estava bem à sua frente. Muitos buscam paz, amor, alegria, vida plena, aceitação, estão dispostos a subir aos céus e a descer até o inferno, a sacrificar-se, a destruir-se, a entregar-se a loucuras e perigos. Mas não conseguem (ou não querem) crer que Jesus pode oferecer tudo isso e muito mais, em um pacote só, em si mesmo. Ele é o caminho para Deus, é a Vida Eterna que estava com Deus e nos foi manifestada. Mas nós não queremos ir a ele para receber vida. Ao invés, nos subjugamos a uma vida pela metade. A vida plena começa no momento em que compreendemos que Deus nos ama, e que por nos amar ele enviou seu único filho para que por ele vivamos.

     Tudo o que escrevo vem de experiência própria! Não preciso mais (sobre)viver de lixo, de restos e porcarias – em Cristo sou alimentado com um verdadeiro banquete! “Como é precioso o teu amor, ó Deus! Os homens encontram refúgio à sombra das tuas asas. Eles se banqueteiam na fartura da tua casa; tu lhes dás de beber do teu rio de delícias. Pois em ti está a fonte da vida; graças à tua luz, vemos a luz” (Salmos 36:7-9). Jesus é o mesmo ontem, hoje e eternamente, e o convite que ele fez aos judeus de dois mil anos atrás ecoa para nós hoje: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba” (João 7:37).

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Don't worry, be happy!

Parece-me impossível não se deixar contagiar por uma canção de ritmo suave, que inicia com uma melodia cativante e despreocupadamente assobiada, e que em seu título e refrão diz: “Don’t worry, be happy” (Não se preocupe, seja feliz, em inglês). Eu inevitavelmente associo essa música a um ambiente de praia paradisíaca, com palmeiras, água de coco, brisa suave, uma sombra gostosa e nenhum problema para atrapalhar o clima.
Bob Marley, intérprete dessa música, se tornou ícone de uma geração por cantar e pregar uma vida despreocupada, paz, alegria e harmonia. E quem, em sã consciência não deseja essas coisas? Mesmo quem tem o privilégio de relaxar por alguns dias em uma praia paradisíaca, dificilmente consegue alienar-se dos problemas e preocupações cotidianos. No entanto, ainda que tenhamos belos discursos e canções sobre uma vida tranquila, de paz e tranquilidade, a paz não passa a existir por si mesma. Ela precisa de uma causa, uma fonte, do contrário essa expectativa invariavelmente torna-se em frustração. E “paz”, por definição, significa “sossego, quietação de ânimo, tranquilidade, ausência de conflitos e divisões, reconciliação”.
Bob Marley foi muito gentil ao falar desses assuntos, mas ele não pôde oferecer (como nenhum ser humano, de fato, poderia) uma causa para paz e alegria na vida de ninguém, somente expectativas. Contudo, um outro famoso professor e pregador, há muitos anos atrás declarou: “Deixo-lhes a paz; a minha paz lhes dou. Não a dou como o mundo a dá. Não se perturbem os seus corações, nem tenham medo” (Jo. 14:27). Alguém que fala com tanta propriedade necessita, obrigatoriamente, oferecer uma causa objetiva para isso. E graças a Deus, ele o fez! Jesus Cristo não foi apenas um mestre de ensinos bonitos, porém inalcançáveis. Ele mesmo se tornou a causa possível de paz a todos nós, em cada um dos pontos acima definidos! “Ele é a nossa paz”, declarou o apóstolo Paulo à igreja em Éfeso (Ef. 2:14), ao referir-se à obra reconciliadora de Cristo tanto com relação a Deus – que ao garantir o perdão dos pecados através de sua cruz, destruiu o muro que nos separava do Criador, e com relação aos homens, propondo reunir em si mesmo todo homem que, pela fé, aceita essa reconciliação.

Ao final de sua vida, Bob Marley redeu-se à paz que somente Cristo pode oferecer, sendo batizado na Igreja Ortodoxa Etíope pouco antes da sua morte. Na carta aos hebreus lemos que Jesus, ao ser consumado (morto), “veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem” (Hb. 5:9), e que “pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hb. 7:25). Ele se tornou a causa de salvação e paz que precisamos. Achegue-se a Ele!

sábado, 27 de agosto de 2016

Abel, Caim, e a religião que Deus aceita

       Rotineiramente ouvimos: “Todas as religiões levam a Deus”. A bíblia conta a história de dois irmãos, filhos de Adão e Eva nascidos após a entrada do pecado no mundo, que quiseram se aproximar de Deus. Gênesis 3 dá a entender que Adão e Eva relacionavam-se com Deus diariamente e que este relacionamento rompeu-se com o pecado – isto é, a desobediência para com o mandamento de Deus, resultando em morte física e espiritual. Certamente seus descendentes, entre eles Caim e Abel, cresceram ouvindo histórias sobre esse contato com Deus no paraíso perdido e sobre a promessa feita por Deus (o chamado proto-evangelho, em Gn. 3:15) de que um dia um descendente de Eva derrotaria o Diabo e restauraria a comunhão com Deus. Sem sombras de dúvida, esses relatos e a promessa de restauração geraram um anseio e uma expectativa muito grande nas primeiras gerações humanas por buscar a Deus, por retomar esse vínculo com o Criador.
       O capítulo 4 de Gênesis relata que Caim e Abel, no intuito de aproximar-se de Deus, apresentaram ofertas. Não sabemos exatamente quando ou como esses ritos iniciaram; sabemos que o primeiro sacrifício foi feito pelo próprio Deus para cobrir a vergonha de Adão e Eva com a pele de animais, apontando para o sacrifício de Cristo. Abel e sua oferta foram aceitos diante do Senhor, porém Caim e sua oferta, não. Por qual motivo teria isso acontecido? O texto não deixa explícito, no entanto temos, algumas pistas que nos permitem uma conclusão. Sobre Caim, o apóstolo João diz que “pertencia ao maligno” e “suas obras eram más” (I Jo 3:12). Judas, irmão de Jesus, relaciona os falsos mestres religiosos ao “caminho de Caim” (Jd 11), e Jesus também faz essa associação (Mt 23:35). Sobre Abel, sabemos que: era justo (Mt 23:35), fazia boas obras (I Jo 3:12), e que “pela fé, Abel ofereceu a Deus sacrifício superior ao de Caim, sendo reconhecido como justo quando Deus aceitou suas ofertas” (Hb 11:4). Caim nos fala da religião, do homem separado de Deus e que tenta aproximar-se dele com seus próprios esforços, mas que fracassa por não ser capaz de atender aos requisitos divinos. Abel nos fala da reconciliação com Deus através de Cristo, o sacrifício expiatório que nos aproxima do Altíssimo mediante a fé em sua obra redentora.
      Não há nenhuma religião que nos aproxime de Deus. Tentar aproximar-se dele através de ritos, por mais elegantes ou piedosos que sejam, é inútil. Mas através de Cristo, o sacrifício perfeito, temos aprovação de Deus e acesso à vida com ele. “Disse-lhes Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (João 14:6).

sábado, 2 de abril de 2016

“Todos atrairei a mim”


Uma semana antes de ser entregue para ser crucuficado, Jesus havia saído de Betânia em direção a Jerusalém, onde haveria a celebração da páscoa judaica. O capítulo 12 do evangelho de João relata que após calorosa recepção pelas multidões, que aclamavam seu nome ao entrar na cidade, Jesus foi procurado por alguns gregos (mais precisamente gentios, ou não-judeus, e não necessariamente pessoas oriundas da grécia) que haviam ido à festa adorar a Deus. Esse contato entre os gregos e Cristo foi mediado por seus discípulos Filipe e André, e o que se seguiu após isso sempre pareceu um tanto “misterioso” pra mim, pelo fato de não haver menção se esses gregos conseguiram falar com Jesus e também pelo teor do discurso por ele proferido.

Logo após ficar sabendo que gentios o procuravam, Jesus imediatamente passou a falar de aspectos relativos à sua morte e sua obra redentora. Falou de ser glorificado, da semente que precisa morrer para gerar frutos e de que apesar de estar com a alma perturbada com o que haveria de acontecer em seguida, era justamente isso que cumpriria o propósito de sua missão. Então, dois eventos simultâneos à crucificação são revelados por Jesus. O primeiro deles diz respeito ao julgamento desse mundo e a derrota de Satanás. A bíblia diz que “O mundo está sob o poder do maligno” (I João 5:19), mas que Jesus Cristo “participou dessa condição humana, para que, por sua morte, derrotasse aquele que tem o poder da morte, isto é, o Diabo, e libertasse aqueles que durante toda a vida estiveram escravizados pelo medo da morte” (Hebreus 2:14,15). A segunda delas diz respeito à humanidade como um todo: “Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim” (João 12:32). Em sua morte Jesus conquistou a redenção para todas as nações. E não somente isso, mas ele deseja atrair-nos a si mediante a sua cruz. Essa cruz que é a loucura de Deus, e que é amor do começo ao fim. Essa cruz que carrega um corpo moído por nossos pecados e ferido por nossas transgressões e que transparece o coração bondoso daquele que se ofereceu como substituto por nós, para que em sua morte achássemos vida na presença do Pai Celestial.


Talvez sejamos como aqueles gregos, ouvimos desse Jesus e desejamos conhecê-lo, encontrá-lo. Pois bem, esse encontro só é possível aos pés da cruz, onde precisamos encarar quem de fato somos e nossa necessidade de redenção, e onde percebemos quem Jesus Cristo é: o provedor da redenção. É através da cruz que ele nos atrai para si.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

“Tornei-me inimigo de vocês por lhes dizer a verdade?”

Verdade – um conceito maltrapilho em nosso mundo pós-moderno. E em um contexto no qual “cada um tem sua própria verdade”, proclamar uma verdade em termos absolutos é ser odiado e rejeitado de tantas formas quantas “verdades” são reivindicadas. Por que, ao final das contas, se há uma verdade absoluta, a minha verdade individual não vale nada. E mais do que isso, ela requer que eu me sujeite a ela (outro conceito fora de moda). Fomos convencidos a acreditar que a “verdade absoluta” e a sujeição à mesma são definições opressivas e injustas, mas não o são. É melhor depender de uma bússola do que em meros instintos quando estamos perdidos e sem direção. Por sua vez, assumir uma verdade relativa a mim, fundamentada em meus próprios desejos, vontades e inclinações é caminhar sobre gelo fino. Em que momento pareceu mais lógico e seguro que confiemos cada um em suas próprias definições a aceitar uma verdade única independente de nós mesmos (limitados e falhos) e acima de nós?
Aceitar uma afirmação como verdade está, de certa forma, relacionada ao grau de confiança que temos na pessoa que faz essa afirmação. Pouco antes de morrer, Jesus foi interrogado por Pilatos (governador romano sobre a província da Judéia). Nesse diálogo, Jesus falou: “De fato, por esta razão nasci e para isto vim ao mundo: para testemunhar da verdade. Todos os que são da verdade me ouvem" (João 18:37,38). O relato do evangelho continua: "'Que é a verdade?', perguntou Pilatos. Ele disse isso e saiu.” Pilatos tinha a mesma inquietação que a maioria de nós tem: o que é a verdade? Pilatos, apesar de seu questionamento, não permaneceu para ouvir a resposta, ele saiu. Provavelmente por que ele sabia que estava prestes a condenar um homem justo. E nós? Será que estamos dispostos a ouvir a voz daquele que que se autointitula a própria verdade? Ou será que estamos receosos de sermos achados em falta de algo?

Mas veja a maravilha do evangelho: aquele que veio trazer a luz e a verdade ao mundo deu sua própria vida e seu sangue como selo de autenticidade a esse testemunho e também para que pudéssemos ser justificados (isto é, libertos de condenação) e transformados! A verdade de Cristo não veio para nos condenar. Pelo contrário, ela nos mostra, sim, o nosso pecado, mas é para que sejamos libertos do mesmo. A verdade muitas vezes pode parecer dolorosa, mas “Quem fere por amor mostra lealdade, mas o inimigo multiplica beijos” (Pv 27:6). "Digo-lhes a verdade: Todo aquele que vive pecando é escravo do pecado. Portanto, se o Filho os libertar, vocês de fato serão livres.” João 8:34,36

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

“A quem vocês estão procurando?”

Na noite em que foi traído por um de seus seguidores e entregue aos soldados para ser levado preso, Jesus estava reunido com seus discípulos em um olival. Ao perceber movimentação de seus algozes, Jesus lhes dirigiu a palavra, dizendo: “A quem vocês estão procurando?”. A essa pergunta, eles lhe responderam: “A Jesus de Nazaré”. O Senhor então replicou: “Sou eu” (João cap. 18). Em minha percepção, a busca por algo é o fator que torna a vida dinâmica; sem isso não há propósito, apenas inércia e tédio.
“A quem vocês estão procurando?” Essa pergunta parece adquirir um grande peso à medida que nos detemos a ela. Aqueles soldados estavam à procura de Cristo. Não para segui-lo, ou ouvir suas palavras, mas para levá-lo preso. Nos últimos anos temos visto uma verdadeira “revolução evangélica” no Brasil: são milhões de novos adeptos todos os anos, incluindo muitos famosos, que passam a professar a nova religião. Afirmam buscar a Cristo. Mas com que motivação? Testemunhos em programas televisivos escancaram: sucesso profissional, prosperidade material, terapia amorosa, etc. O evangelista Lucas conta que certa ocasião, um homem disse a Jesus: “Eu te seguirei por onde quer que fores”. Jesus respondeu: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça” (9:57-58).
Jesus sempre se mostrou acolhedor. No entanto, nunca deixou de dizer a verdade, ainda que lhe custasse menos popularidade e menos seguidores. No evangelho de João (cap. 6:66) lemos que muitos o deixaram após um “discurso duro”. Mas ele não se esconde, antes, anuncia a si mesmo a todos: “Sou eu”. Ele é o Cristo, a esperança de vida nova. E também alerta: “Ninguém pode servir a dois senhores, porque odiará um e amará o outro”, ou seja, dentre muitos “senhores” e “senhoras” a quem possamos invocar ou servir, ele exige exclusividade, pois “só há um Deus e um mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo”(I Tm 2:5).

Buscar a Jesus é “matar ou morrer”. Ou crucificamos novamente o Filho de Deus ou nos aliamos a ele em sua cruz. A quem você busca? Aqueles soldados e os homens que os enviaram não suportaram a verdade de Jesus, e o procuraram para silenciá-lo. Muitos o buscam não para segui-lo, mas porque querem benefício próprio. Mas se você busca vida plena e esperança, Cristo se pronuncia: Sou eu. 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Sonda-me

Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno. Salmo 139:23,24

Essa é uma oração difícil de ser feita com sinceridade! “Sonda-me e conhece o meu coração!” .  Nossa tendência é sempre colocar máscaras, vivemos de aparências. Nossa primeira impressão acerca de uma pessoa é a nossa visão quem dá, relativa ao estereótipo dessa pessoa. Da mesma forma nós também sempre procuramos impressionar aos outros zelando por uma aparência agradável ou, no mínimo, conveniente. Em um certo nível, não há nada de errado em cuidar do exterior; o problema é quando erguemos sobre nós uma camuflagem sobre quem realmente somos, quando agimos com hipocrisia. Mas também é problema quando evitamos o confronto com a Palavra Viva, quando estamos aconchegados em nossa zona de conforto, presumindo que “estamos bem na fita”.
No meio evangélico atual, há essa necessidade de estar sempre bem: os chavões e as “encenações” dentro da igreja estão aí pra provar isso. Escondemos nossas falhas e dificuldades dos outros, de nós mesmos, e achamos que podemos nos esconder de Deus, imaginando que podemos nos tornar mais “aceitáveis” pra Ele (a propósito, Cristo morreu por nós sendo nós ainda pecadores!!). Com isso, somos nós mesmos quem perdemos, deixando passar oportunidades de experimentar de formas muito profundas o amor de Deus e a santificação em nossas vidas.
As Escrituras afirmam que “A Sepultura e a Destruição estão abertas diante do Senhor; quanto mais os corações dos homens!” (Provérbios 15:11). Deus conhece o profundo de nossos corações: anseios, intenções, pensamentos, desejos e pecados. O Senhor Jesus falou com a igreja de Laodicéia no livro de Apocalipse, dizendo:
Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente!
Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca. Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu; Aconselho-te que de mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças; e roupas brancas, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez; e que unjas os teus olhos com colírio, para que vejas. Eu repreendo e castigo a todos quantos amo; sê pois zeloso, e arrepende-te. Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo.
  Apocalipse 3:15-20
Uma das cenas mais engraçadas e ao mesmo tempo mais tristes é quando observamos pessoas que “se acham” mas não são – estão plenamente convencidas em si mesmas que estão no topo, enquanto que, na verdade, todo o resto vê uma situação muito diferente.
Vamos visitar uma passagem dos evangelhos sinóticos que pode nos ajudar a refletir sobre essa verdade em nossas próprias vidas, e que também vai nos confrontar:
Quando Jesus ia saindo, um homem correu em sua direção, pôs-se de joelhos diante dele e lhe perguntou: "Bom mestre, que farei para herdar a vida eterna? "Respondeu-lhe Jesus: "Por que você me chama bom? Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus. Você conhece os mandamentos: ‘não matarás, não adulterarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não enganarás ninguém, honra teu pai e tua mãe’". E ele declarou: "Mestre, a tudo isso tenho obedecido desde a minha adolescência". Jesus olhou para ele e o amou. "Falta-lhe uma coisa", disse ele. "Vá, venda tudo o que você possui e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me".
Diante disso ele ficou abatido e afastou-se triste, porque tinha muitas riquezas.
Jesus olhou ao redor e disse aos seus discípulos: "Como é difícil aos ricos entrar no Reino de Deus!" Os discípulos ficaram admirados com essas palavras. Mas Jesus repetiu: "Filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus!  É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus".
 Marcos 10:17-25
Vemos aí a história de um homem piedoso conforme a lei e as tradições judaicas. Tinha uma vida religiosa “pra ninguém botar defeito”. Ainda assim, ele recorreu a Jesus. Não sabemos sua motivação ao fazê-lo, mas duas hipóteses me passam à mente (que não refletem necessariamente a verdade): 1) Ele esperava ouvir elogios de Jesus por sua fidelidade à lei, ou 2) Ele imaginava que Jesus lhe daria mais mandamentos para que ele cumprisse (e assim teria mais piedade...).  Mas Jesus lhe desvendou o coração.
Ele se ajoelhou diante do Senhor e chamou-o de “bom mestre”. Provavelmente esse tipo de reverência era desejada pelos fariseus e mestres da lei da época, mas Jesus parece ter feito pouco caso. Em resposta à pergunta do homem rico, Jesus deve ter soado como “Como assim, ‘o que farei pra herdar a vida eterna’? Você já não conhece os mandamentos?” Isso parece um tanto quanto provocativo, em um bom sentido, da parte do Senhor. Talvez para saber se o rapaz se contentava com aquilo, ou se estava insatisfeito, se havia inconformismo. “Que me falta ainda?”, disse o jovem, segundo o relato de Mateus. Mais uma vez, é difícil perceber a motivação do rico com essa questão. Poderia ser sincera, ou então legalista ou pretexto pra se gloriar.
Mas o detalhe que só existe no livro de Marcos é esse: “Jesus olhou para ele e o amou”. E não importa o que trazemos conosco, esse é olhar de Jesus sobre nós também. E não importa o que ele venha a nos dizer, será dito com amor. E nesse momento é que Jesus desvenda o coração desse jovem rico. Várias vezes os evangelhos relatam que “Jesus conhecia os pensamentos” e o coração do ser humano. E ele sempre confrontava, em um bom sentido, cada um com quem ele tratava, como quem confronta uma mentira. Os dependentes químicos aprendem que o primeiro passo pra recuperação é admitir o problema. E a didática de Jesus passa por essa etapa. Foi assim com Nicodemos (“És mestre em Israel e não sabes estas coisas?”), com Pedro, com Tiago e João, e com vários outros, e é assim conosco também. Jesus não se conforma em deixar que vivamos nossas mentiras, nossa fuga de nós mesmos. Ele deseja nos curar!
Em seguida, Jesus lhe disse: "Se você quer ser perfeito, vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me" (Mateus 19:21). E foi nesse ponto que Jesus tocou na ferida, expôs o interior daquele homem para que ele mesmo pudesse contemplar. Ele quis mostrar que apesar da obediência irrestrita à Lei, o coração do jovem não estava em Deus. Então, o Senhor lhe propõe renunciar àquilo que lhe governava o coração. E esse é o segundo ponto da didática Divina: a entrega. Foi assim com Abraão, que após 25 anos de espera gerou a Isaque aos 100 anos de idade, fruto da promessa de Deus, e foi desafiado a devolvê-la a Deus, para que seu coração não estivesse na promessa, mas sim naquEle que prometeu. Foi assim com Paulo, que tendo muitos motivos pra se gloriar na sua formação humana rejeitou tudo como refugo, a fim de ganhar a Cristo. E então Jesus convidou o jovem rico a segui-lo.
Diante disso ele ficou abatido e afastou-se triste, porque tinha muitas riquezas. Sua tristeza passou pelo enfrentamento da realidade de seu coração e da impossibilidade de renunciar isso. O propósito dessa análise não é, de forma alguma, julgar esse homem; é de identificar-nos com ele. Somos mais parecidos com ele do que pensamos. Seu destino foi essa tristeza, e sua escolha de se afastar. Quando nos conformamos, nos afastamos. E, sem dúvida há muitas coisas que podem dominar nosso coração, mas não podemos ignorar o fato de que dentre todos eles Jesus destacou as riquezas. Isso porque além de exigir de nós o amor que é devido a Deus como as outras coisas, as riquezas nos fazem confiar e depender nelas. Jesus se indignou com a atitude do homem e fez o desabafo em seu lamento.

E nós? Desejamos que Deus realmente sonde os nossos corações?  Estamos preparados para permitir que o Senhor nos tire do nosso conforto e trabalhe fundo no nosso ser?

Ou será que ele já tem nos mostrado algumas coisas, e estamos relutantes? O conformismo é perigoso! Se não persistimos em oração diária por santificação, já estamos nos afastando!

Na realidade, se estamos em Cristo, precisamos permitir que o Senhor faça isso. Precisamos orar sempre, em humildade e contrição, para que o nosso coração não nos engane e não nos afaste dos caminhos do Senhor:

Cuidado, irmãos, para que nenhum de vocês tenha coração perverso e incrédulo, que se afaste do Deus vivo. Pelo contrário, encorajem-se uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama "hoje", de modo que nenhum de vocês seja endurecido pelo engano do pecado,  pois passamos a ser participantes de Cristo, desde que, de fato, nos apeguemos até o fim à confiança que tivemos no princípioHebreus 3:12-14
Examinem-se para ver se vocês estão na fé; provem-se a si mesmos. 2 Coríntios 13:5ª

Não precisamos temer o que pode surgir! Cristo morreu por nós enquanto ainda éramos pecadores! Quanto mais Deus não demonstrará seu amor para conosco agora que buscamos por sua graça!
Que o Espírito Santo clame em nossos corações contra toda a injustiça em nós, contra todo o pensamento que se levante contra o conhecimento de Cristo!


Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus. Romanos 12:1-2